terça-feira, 25 de julho de 2017

Problema de saúde pública


Publicado em ÍNTEGRA
Desde 1960

com Circe Cunha e MAMFIL

colunadoaricunha@gmail.com

Depois de inúmeras tentativas para solucionar os problemas decorrentes da perigosa proximidade do canil do Centro de Zoonoses do DF/Dival do Hospital da Criança, a presidente da Confederação Brasileira de Defesa Animal, Confaos — Brasil, Carolina Mourão Albuquerque, protocolou representação judicial no GDF, para que a Secretaria de Saúde do Distrito Federal e os próprios responsáveis pelo canil adotem providências urgentes para a desativação total dessa unidade de descarte de animais.


A proximidade de 150 metros que separam o canil do hospital por si só já seria motivo mais do que suficiente para se constatarem perigos potenciais de contaminação por doenças infectocontagiosas, transmitidas dos animais para as crianças submetidas a delicados e complexos tratamentos oncológicos que, todos sabem, provocam baixas acentuadas no sistema imunológico dos pacientes.


O próprio relatório elaborado pela Polícia Ambiental do DF concluiu que os dejetos infectantes dos animais, sem controle, oferecem alto risco aos que estão, nas proximidades, em tratamento contra o câncer, especialmente os menores carentes. A destacar o elevado risco de contaminação a que as crianças estão expostas, com risco real de perda fatal a qualquer momento.


Há um perigo que pode passar sem que seja percebido. Trata-se do desnível do terreno do canil, construído de forma que favorece, no período de chuva, que o material infectante escorra para a área do hospital — fato que já pode ser um alerta em alto grau para a infecção das crianças. Os pais sabem da situação, mas nenhum quer tratar do assunto por causas óbvias de vulnerabilidade.


O que mais assusta quem deseja se aprofundar nesse assunto é que o canil acredita que a responsabilidade de recolher os animais mortos é da empresa que coleta lixo no DF, o que causa espanto, porque esse material infectante precisaria de incinerador apropriado. Também a Resolução nº 358, elaborada pelo pessoal do Conama, alerta: “Grande ameaça para o ser humano e para os animais, representando grande risco a quem manipula e tendo grande poder de transmissibilidade de um indivíduo para o outro, não existindo medidas preventivas e de tratamento para esses agentes”.


A demanda não é de agora. Há anos o descaso vem chamando a atenção da imprensa. Ratos no local, lixo infectado cheio d’água, galões com material biológico expostos são marcas da falta de interesse, da negligência, imprudência e imperícia para lidar com animais.


O Parque do Cortado, em Taguatinga, recebeu R$ 2 milhões para a reforma de um galpão que até hoje não foi entregue, enquanto, em Mogi das Cruzes, um complexo de tratamento animal foi erguido com R$ 600 mil. Certo é que, se o caso não for resolvido, a solução será arbítrio da Corte Internacional. Onde está a proteção dos direitos humanos quando uma criança vai dormir dizendo ao ouvir os uivos desesperados dos animais: “A gente morre aqui e os cachorrinhos ali”.


» A frase que foi pronunciada:

“Quanto melhor conheço os homens, mais amo os cães.”
Charles de Gaulle (ex-presidente da República Francesa)

Aos que estão desanimados, por Roberto Malvezzi (Gogó)




artigo de opinião

Escrevo para mim mesmo e tantos outros que estão como eu.


A imposição ditatorial dos valores e regras do extremo liberalismo sobre o povo brasileiro sem que tenhamos qualquer possibilidade aparente de defesa, jogou um mar de pessimismo e imobilidade sobre as multidões. Como pessoas desse povo, também é impossível escapar ilesos.


Mas, para quem está desanimado, é preciso lembrar outras situações.


Lembre-se dos milhões de pessoas que estão sendo violentadas e assassinadas pelas guerras na Síria, no Iraque, no Sudão e no Afeganistão.


Lembre-se do povo palestino, confinado em seu território, sem poder controlar inclusive o uso das águas que brotam em seu território.


Lembre-se nos migrantes, dos “desplazados ambientales”, expulsos de suas terras e de seus familiares, migrando incertos pelos mares e novas terras.


Lembre-se das pessoas sepultadas no mar, dos que são mortos nos muros, dos que morrem no deserto buscando outro lugar.


Lembre-se dos 900 milhões de pessoas ao redor do mundo que passam fome todos os dias, dos 1,2 bilhão que passam sede, e dos 2,5 bilhões que não tem saneamento básico.
Lembre-se dos sem terra, dos sem teto, dos indígenas e negros que sofrem ataques, suportam opressões e humilhações há mais de 500 anos.


Você pode vasculhar sua memória e lembrar-se de parentes, vizinhos e amigos que estão em situação pior que a sua.


Não estou propondo a imobilidade e nem o desespero. Mas, é dessas pessoas que Francisco nos fala todos os dias. Temos hoje a globalização das desumanidades e é contra ela que somos chamados a reagir.


Não se importe se não há luz no fim do túnel, nem mesmo se não existe túnel. Lembre-se sempre da frase lapidar de João da Cruz em sua longa noite escura: “é por não ver por onde vou, que vou”. Portanto, mesmo que não haja um fósforo brilhando na escuridão, continuemos andando.


Lembremo-nos também do Hay kay de D. Hélder: “a noite estava tão escura, tão sem um ponto de luz, tão noite, que cheguei a me angustiar, apesar do amor profundo que sempre tive pela noite. Foi quando ela me segredou que, quanto mais noite é a noite, mais bela é a manhã que ela carrega em si”.


Fazer o pequeno, plantar a semente, divulgar as lutas, participar das lutas, fazer formação de base, fazer orações pessoais e coletivas, participar dos mutirões, organizar a esperança, essas são as tarefas da hora.


Nem a escuridão total imobiliza quem se move pela fé.


Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.
www.robertomalvezzi.com.br


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/07/2017
"Aos que estão desanimados, por Roberto Malvezzi (Gogó)," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/07/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/07/25/aos-que-estao-desanimados-por-roberto-malvezzi-gogo/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Direitos territoriais dos povos indígenas sob ameaça

segunda-feira, 24 de julho de 2017


Resistência depende de mobilização do movimento indígena e da sociedade. Antropólogos têm um papel fundamental nesse esforço

Por Patricia Mariuzzo – Jornal da Ciência/SBPC
Letícia Pataxó tem 21 anos e vive em uma das aldeias da Terra Indígena Comexatibá, município de Prado, no Sul da Bahia. No começo dos anos 2000, um grupo de funcionários da Funai iniciou os estudos de identificação do território dessa comunidade onde vivem mais de 700 indígenas. Mais de 10 anos o processo de reconhecimento oficial ainda está na segunda etapa, o que significa que o território está “identificado”. 
Atualmente, as Terras Indígenas a serem administrativamente demarcadas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) devem seguir os procedimentos dispostos no Decreto 1775/1996. As fases do processo de reconhecimento são: 1. estudos de identificação; 2. aprovação da Funai; 3. contestações; 4. declaração dos limites; 5. demarcação física; 6. homologação e 7. registro. 
Presente na plateia da mesa “Direitos territoriais dos povos indígenas: avanços e retrocessos em perspectiva antropológica”, parte da programação da SBPC Indígena, Letícia contou que após a conclusão dos estudos de identificação o grupo foi esquecido: “Ninguém mais apareceu lá”. Aparentemente o processo está parado”, disse. Esse é um dos vários exemplos de retrocessos na proteção e demarcação das terras indígenas no Brasil nos últimos anos, situação agravada pela crise política e econômica.
“Uma série de ações desse governo rompeu com uma política que estava vigorando há pelo menos 14 anos, fortalecendo setores ligados ao agronegócio e flexibilizando direitos territoriais indígenas”, afirmou Ricardo Verdum, professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro da Comissão de Assuntos Indígenas (CAI) da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). São exemplos a aprovação da PEC 215, que retira do Executivo a exclusividade de demarcar terras indígenas e a instituição de Comissão Parlamentar de Inquérito com o objetivo de “investigar” a atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai) no processo de reconhecimento de direitos territoriais de povos indígenas.
“O que estamos vendo é um novo ‘velho indigenismo’ ganhando força para emplacar empreendimentos de grande impacto ambiental, como hidrovias e rodovias, com intuito de escoar produção agrícola e da mineração e de explorar os recursos naturais presentes nos territórios indígenas”, afirmou o professor para uma plateia lotada. 
Esses projetos visam, por exemplo, a ampliação da infraestrutura logística do chamado Arco Norte, região que compreende os estados de Rondônia, Amazonas, Amapá, Pará e segue até o Maranhão, para escoar produtos como soja, milho, bauxita, alumínio, minério de ferro e manganês. “Vivemos um momento em que a manutenção dos direitos das comunidades indígenas está claramente ameaçada e isso, aliado à restrição orçamentária, cria um cenário fortemente propício ao acirramento de conflitos”, afirmou Verdum.
Já o professor do Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG, Ruben Caixeta de Queiroz, que compôs a mesa de debates, destacou a possibilidade de paralisação dos processos de demarcação de terras indígenas, especialmente fora da Amazônia, como foi mencionado pela estudante Letícia Pataxó.
 “A despeito do que tivemos no período pós-Constituição de 1988, ainda há um longo caminho a percorrer. Os territórios ainda não demarcados estão na mira de grandes empreendimentos e de projetos de arrendamento de terra para uso para lavoura e mineração”, disse. Segundo ele informou, boa parte das terras indígenas fora da Amazônia Legal não estão regulamentadas. “Se na Amazônia Legal o esforço é para proteger o que está demarcado, no resto do País o desafio é demarcar”, completou.



Qual o papel dos antropólogos diante dessas ameaças e demandas? Essa foi uma das perguntas que guiou a fala do professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e consultor do Ministério Público Federal e da Funai, Fábio Mura, que coordenou a mesa. Para ele, é fundamental que a análise antropológica presente em todos os processos de demarcação de Terras Indígenas possa se descolar dos processos administrativos e informar o público sobre as conclusões dos seus estudos. “O que gera insegurança – e violência – é o desconhecimento. 
Quando a sociedade não é bem informada sobre como se dão os processos de demarcação cria-se terreno fértil para ruralistas afirmarem absurdos como, por exemplo, que os territórios indígenas vão abarcar cidades inteiras”. A luta pelos territórios indígenas passa, portanto, por uma melhor comunicação com a sociedade.


Fonte: EcoDebate

Um planeta literalmente coberto de plástico


segunda-feira, 24 de julho de 2017


O ecologista industrial Roland Geyer mede a produção, o uso e o destino de todos os plásticos já fabricados, incluindo fibras sintéticas

Por Julie Cohen*, University of California, Santa Barbara

Mais de 8 bilhões de toneladas métricas. Essa é a quantidade de plásticos, de origem humana, criados desde que a produção em grande escala de materiais sintéticos começou no início dos anos 50. É suficiente para cobrir todo o país da Argentina e a maioria do material agora reside em aterros sanitários ou no ambiente natural.



Tais são os resultados de um novo estudo liderado pelo ecologista industrial Roland Geyer, da UC Santa Barbara. A pesquisa, publicada na revista Science Advances, fornece a primeira análise global da produção, uso e destino de todos os plásticos já fabricados, incluindo fibras sintéticas.



“Não podemos continuar com o negócio como de costume, a menos que queremos um planeta literalmente coberto de plástico”, disse o autor principal, Geyer, professor associado da Escola Bren de Ciências e Gestão Ambiental da UCSB. “Este artigo fornece dados rígidos, não apenas quanto ao plástico que fizemos ao longo dos anos, mas também a sua composição e a quantidade e tipo de aditivos que o plástico contém. Espero que essa informação seja usada pelos formuladores de políticas para melhorar estratégias de gerenciamento de finais de vida para plásticos “.



Geyer e sua equipe compilaram estatísticas de produção de resinas, fibras e aditivos de várias fontes da indústria e sintetizaram-nas de acordo com o setor de tipo e consumo. Eles descobriram que a produção global de resinas e fibras plásticas aumentou de 2 milhões de toneladas em 1950 para mais de 400 milhões de toneladas em 2015, superando a maioria dos outros materiais artificiais. Exceções notáveis são aço e cimento. Embora esses materiais sejam usados principalmente para construção, o maior mercado de plásticos é a embalagem, que é usada uma vez e depois descartada.



“Aproximadamente metade de todo o aço que fabricamos entra em construção, por isso terá décadas de uso; O plástico é o oposto “, disse Geyer. “Metade de todos os plásticos se tornam resíduos após quatro ou menos anos de uso”.



E o ritmo da produção de plástico não mostra sinais de desaceleração. Da quantidade total de resinas plásticas e fibras produzidas de 1950 a 2015, cerca de metade foi produzida nos últimos 13 anos.


“O que estamos tentando fazer é criar as bases para o gerenciamento sustentável de materiais”, acrescentou Geyer. “Simplesmente, você não consegue gerenciar o que você não mede, e então pensamos que as discussões sobre políticas serão mais informadas e com base em fatos, agora que temos esses números”.


Os pesquisadores também descobriram que, até 2015, os seres humanos produziram 6,3 milhões de toneladas de resíduos de plástico. Desse total, apenas 9% foram reciclados; 12 por cento foram incinerados e 79 por cento acumulados em aterros sanitários ou no ambiente natural. Se as tendências atuais continuam, observou Geyer, cerca de 12 bilhões de toneladas métricas de resíduos de plástico – pesando mais de 36 mil que o edifício Empire State Buildings – estarão em aterros sanitários ou no ambiente natural em 2050.



“A maioria dos plásticos não se biodegrada em nenhum sentido significativo, de modo que o desperdício de plástico, que os seres humanos geraram, poderia estar conosco por centenas ou mesmo milhares de anos”, disse a coautora Jenna Jambeck, professora associada de engenharia da Universidade da Geórgia. “Nossas estimativas ressaltam a necessidade de pensar criticamente sobre os materiais que usamos e nossas práticas de gerenciamento de resíduos”.


Dois anos atrás, a mesma equipe de pesquisa publicou um estudo na revista Science que mediu a magnitude dos resíduos de plástico no oceano. Eles descobriram que dos 275 milhões de toneladas métricas de resíduos de plástico gerados em 2010, cerca de 8 milhões entraram nos oceanos do mundo. Esse estudo calculou a quantidade anual de resíduos de plástico usando dados de geração de resíduos sólidos; A nova pesquisa usa dados de produção de plástico.


“Mesmo com dois métodos muito diferentes, obtivemos praticamente o mesmo número de resíduos – 275 milhões de toneladas métricas – para 2010, o que sugere que os números são bastante robustos”, disse Geyer.


“Há pessoas vivas hoje que se lembram de um mundo sem plásticos”, disse Jambeck. “Mas os plásticos tornaram-se tão onipresentes que você não pode ir a qualquer lugar sem encontrar resíduos de plástico em nosso meio, incluindo nossos oceanos”.


Os pesquisaores são rápidos em avisar que eles não procuram eliminar o plástico do mercado, mas defendem um exame mais crítico do uso de plástico.


“Existem áreas onde os plásticos são indispensáveis, como a indústria médica”, disse o coautor Kara Lavender Law, professor de pesquisa da Sea Education Association em Woods Hole, Massachusetts. “Mas eu acho que precisamos examinar cuidadosamente o uso de plásticos e perguntar se ele faz sentido”.


Production, use, and fate of all plastics ever made
Roland Geyer,*, Jenna R. Jambeck and Kara Lavender Law
Science Advances 19 Jul 2017:
Vol. 3, no. 7, e1700782
DOI: 10.1126/sciadv.1700782

Fonte: EcoDebate

Regeneração do cerrado traz de volta diversidade de mamíferos

Por Vandré Fonseca
Mata regenerada também é abrigo de médios e grandes mamíferos, como a suçuarana (acima). Foto: Divulgação.
Mata regenerada também é abrigo de médios e grandes mamíferos, 
como a suçuarana (acima). Foto: Divulgação.


Mamíferos de médio e grande porte, ou seja, aqueles que podem pesar pelo menos um quilo, estão de volta a áreas de cerrado em recuperação no Parque Estadual Veredas do Peruaçu, norte do estado de Minas Gerais. Antes da unidade de conservação ser criada, em 1994, parte da vegetação havia sido derrubada para o plantio de eucaliptos.


“É uma notícia boa, porque mostra que essas áreas tiveram um corte para produzir eucalipto e agora existe uma rica população de mamíferos por lá”, comemora o biólogo Guilherme Braga Ferreira, pesquisador do Instituto Biotrópicos e estudante de doutorado da University College London e do Institute of Zoology, Zoological Society of London.


Em julho, ele e outros colegas publicaram na revista Biotropica os resultados de um estudo que utilizou câmeras automáticas para registrar animais em áreas de cerrado regeneradas e o cerrado maduro, que não sofreu impactos significativos nas últimas quatro décadas. O grupo verificou que mesmo espécies ameaçadas de extinção estavam utilizando a vegetação regenerada, da mesma maneira que usavam o cerrado mais maduro.


Veredas do Pearuçu. Foto: Divulgação.
Veredas do Pearuçu. Foto: Divulgação.


Para o biólogo, o resultado tem implicações para outras áreas de cerrado de Minas Gerais degradadas pelo plantio de eucalipto no passado. Em condições favoráveis, de acordo com ele, as áreas de cerrado regeneradas podem se tornar ambientes importantes para mamíferos ameaçados, como lobo-guará, anta e tamanduá-bandeira.



Medidas de proteção, aliadas à presença de áreas de cerrado ainda preservadas, que contribuem para a recuperação da vegetação nativa, e abriga animais que podem voltar a colonizar áreas em regeneração, são importantes para a volta dos animais.


O Parque Estadual Veredas do Peruaçu foi criado em 1994 e ocupa 31,2 mil hectares, a maior parte no município de Cônego Marinho (MG). De acordo com Ferreira, ele tem condições privilegiadas, por ser uma área protegida, com brigadas e onde praticamente não há ocorrência de fogo. “Além da proteção que favorece a regeneração, essa região tem uma baixa densidade de população humana e ainda mantém grandes manchas de cerrado”, afirma.

Oportunidade: Curso de Criação e Gestão de Unidades de Conservação em Áreas Urbanas


Registro  de pequenos que impressionam no Parque Estadual da Cantareira. Foto: Michely da Silva Nascimento/WikiParques
Registro de pequenos que impressionam no Parque Estadual da Cantareira. 
Foto: Michely da Silva Nascimento/WikiParques

Estão abertas as inscrições para o curso Criação e Gestão de Unidades de Conservação em Áreas Urbanas que acontecerá entre os dias 29 de agosto e 2 de setembro, na sede da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, em São Paulo. Entre os tópicos das aulas estão: a criação e a gestão de Unidades de Conservação (UCs) urbanas; instrumentos de gestão; educação ambiental em área protegidas. O curso também trará estudos de caso e uma visita técnica para atividade prática no Parque Estadual da Cantareira (SP). A carga horária total é de 30 horas-aulas.


São 30 vagas, sujeitas à lotação. Os interessados devem enviar um e-mail para cursocriacaoegestaouc@gmail.com com as seguintes informações: nome completo; data de nascimento; cidade e estado de residência; e preencher no campo de assunto “Solicitação de inscrição no Curso de Criação e Gestão de Unidades de Conservação em Áreas Urbanas a realizar-se entre os dias 29 de Agosto a 02 de Setembro de 2017”. Confira o link com as condições e normas para se inscrever.


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Serviço:


Curso de Criação e Gestão de Unidades de Conservação em Áreas Urbanas
Quando? 29/08, às 14h00 até 02/09, às 19h00
Onde? Rua Dr. Luis Carlos Gentile de Laet, 553, Sede da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – Horto Florestal – São Paulo/SP
Quanto? R$500 à vista até 15/08; R$600 em 2x


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Nosso bairro precisa de RESPEITO!

⁠⁠⁠⁠⁠
O atual Governador Se cumprisse o seu discurso de campanha, jamais teria apresentado esse projeto de MEI para descaracterizar o Park Way, Lago Sul e Norte. Como votei nele, sugiro que tenha coragem de criar novos bairros (que atenderiam os Empresários da Construção Civil). E se quisesse marcar seu Governo, com uma atitude para preservar os Córregos e Nascentes tombaria principalmente o Park Way e Lago Sul e Norte. Que Deus não permita que a ambição sobreponha o bem maior; natureza. Estamos vivendo racionamento. E as próximas gerações como vão sobreviver ????????   
                 

Procurando entender o projeto do Atual Governo do GDF, compareci à Audiência Pública do dia 28 de junho de 2017, a emoção tomou conta de mim: Busquei entender o meu sofrimento, e vi que era pelo fato de me dedicar por mais de vinte anos, replantando áreas públicas degradadas, ajudando os bombeiros apagar fogo subterrâneo, catando lixo na Lagoa do Cedro semanalmente, e em outras áreas. Afinal só Deus e meu diarista sabem de quanto cada planta tem meu respeito e dedicação. E o GDF quer, porque quer enfiar a MEI aqui no Park Way, Lago Sul e Lago Norte. Na Audiência, ao ouvir os representantes do Governo e pessoas que apostaram na ilegalidade (buscando legalizar casas de festas, etc) defendendo um projeto que vai sim descaracterizar esses bairro, ainda mais o nosso bairro que tem o regime de Condomínios.

E vendo o comportamento desses representantes do GDF e donos de Comércio (em área residencial)  defendendo o projeto MEI, vejo que todo o cuidado com a natureza pode ter sido em vão !!!! Pois essas pessoas acima sabem que estamos vivendo um racionamento de água (uma crise hídrica, maior da história) sabem que o Park Way é uma área de recarga de aquíferos, tem inúmeras nascentes e córregos que deságuam no Lago Paranoa, e mesmo assim querem descaracterizar nosso bairro. Meu sentimento por esse comportamento dos citados acima é:  estou enojada pela falta de verdade, de compromisso e respeito pela natureza. E eles sabem que o Park Way não é importante só para nós moradores, e sim é Importante  para todo o Distrito Federal. Ouvi a propaganda em uma emissora de rádio e fiquei mais enojada com a falta de verdade!!  Já no início deste Governo, quiseram mudar o nome de nosso Bairro (agora dá para entender 🙄🙄). Nascemos Park Way e desejamos continuar Park Way. Nossas casas foram construídas para ser apenas nosso lar.

Não queremos virar "Vicente Pires".

Não preciso de votos, mas nosso bairro precisa de RESPEITO

Maristela Tokarski. Moradora da quadra 16 do Park Way

Lei da Física que imperava há 100 anos é revogada

Lei da Física que imperava a 100 anos é revogada
Ilustração de uma transferência de energia por interferência de onda e ressonância de uma fonte para outra - uma descrição do conceito fundamental de ressonância. [Imagem: EPFL - Bionanophotonic Systems Laboratory]
Lei da física revogada
Pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, desbancaram uma teoria que foi considerada como uma limitação fundamental da física por mais de 100 anos.

Eles conseguiram projetar sistemas ressonantes que podem armazenar ondas eletromagnéticas durante longos períodos de tempo, mantendo uma ampla largura de banda.


A quebra dessa limitação deverá ter um grande impacto em muitos campos da engenharia e da física.

O número de aplicações potenciais tende ao infinito, com as telecomunicações, sistemas de detecção óptica e colheita de energia de banda larga representando apenas alguns exemplos de aplicações mais imediatas.


Fator Q
Sistemas ressonantes e de guia de ondas estão presentes na grande maioria dos sistemas ópticos e eletrônicos - para produzir lasers, fazer circuitos eletrônicos e realizar diagnósticos médicos, entre muitos outros exemplos. Seu papel é armazenar energia temporariamente na forma de ondas eletromagnéticas e, em seguida, liberá-las.

Durante mais de 100 cem anos, esses sistemas obedeceram a uma limitação que os cientistas consideravam fundamental: o tempo que uma onda pode ser armazenada seria inversamente proporcional à sua largura de banda.

Esta relação era interpretada como significando que seria impossível armazenar grandes quantidades de dados em sistemas de ressonância ou de guias de onda durante um longo período de tempo, porque aumentar a largura de banda significaria diminuir o tempo de armazenamento e a qualidade do armazenamento.

Esta "lei" foi formulada por K. S. Johnson, em 1914, que foi quem introduziu o conceito do Fator Q, segundo o qual um ressonador pode, ou armazenar energia por um longo período de tempo ou ter uma ampla largura de banda, mas não ambos ao mesmo tempo.

Até agora, esse conceito nunca havia sido desafiado. Físicos e engenheiros sempre construíram sistemas ressonantes com essa restrição em mente.

Morte do Fator Q
Mas essa limitação agora é coisa do passado. Kosmas Tsakmakidis e seus colegas construíram um sistema híbrido de ressonância e guia de onda feito de um material magneto-óptico que, quando recebe um campo magnético, é capaz de parar a onda e armazená-la por um longo tempo, acumulando assim grandes quantidades de energia. Então, quando o campo magnético é desligado, o pulso preso é liberado.


Com isto, torna-se possível armazenar uma onda por um longo período de tempo, ao mesmo tempo mantendo uma grande largura de banda. Neste experimento inicial, o limite convencional tempo/largura de banda foi superado por um fator de 1.000. A equipe demonstrou ainda que, ao menos em teoria, não existe nenhum limite superior para esses sistemas assimétricos.


"Foi um momento de revelação quando descobrimos que essas novas estruturas não apresentavam nenhuma restrição de largura de banda. Esses sistemas são diferentes daquilo com que todos estávamos acostumados por décadas e possivelmente por centenas de anos," disse Tsakmakidis.

Lei da Física que imperava a 100 anos é revogada
Ilustração de como foi quebrada a "lei da física" conhecida como Fator Q. [Imagem: Kosmas Tsakmakidis et al. - 10.1126/science.aam6662]
O limite é a imaginação
Com esta nova técnica, deverá ser possível melhorar muito as telecomunicações.
Outras aplicações potenciais incluem a espectroscopia on-chip, a colheita e armazenamento de energia de banda larga, além de camuflagens ópticas - os chamados mantos da invisibilidade - muito melhores do que as atuais.

"A descoberta que descrevemos é completamente fundamental - estamos dando aos pesquisadores uma nova ferramenta. E o número de aplicações é limitado apenas pela imaginação de cada um," resumiu Tsakmakidis.

Bibliografia:

Breaking Lorentz reciprocity to overcome the time-bandwidth limit in physics and engineering
Kosmas Tsakmakidis, Linfang Shen, S. A. Schulz, X. Zheng, J. Upham, X. Deng, Hatice Altug, Alexandre F. Vakakis, Robert W. Boyd
Science
Vol.: 356, Issue 6344, pp. 1260-1264
DOI: 10.1126/science.aam6662

Brasileiro vence concurso mundial de fotografia sobre natureza


Por Daniele Bragança
Wendell Medeiros levou o prêmio "Escolha Popular" com a foto "Vitória-Régia". Foto: Divulgação.
Wendell Medeiros levou o prêmio "Escolha Popular" com a foto "Vitória-Régia". 


Foto: Divulgação.


O paraense Wendell Medeiros, de 41 anos, venceu, na categoria voto popular, o concurso internacional de fotografia de natureza promovida pela gigante The Nature Conservancy (TNC). A imagem, que retrata uma vitória-régia na forma de coração, desbancou outras 32 mil fotos da premiação. A fotografia foi tirada no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, em 2013.


A fotografia de Wendell foi selecionada por um júri de fotógrafos de natureza como uma das 100 melhores e, em seguida, disputou com essas finalistas pela preferência do público na internet. “A sensação é maravilhosa, algo inacreditável. Eu mandei algumas fotos e não achava que elas ficariam nem entre as cem escolhidas, justamente por ser um concurso internacional”, contou o paraense.


Criado para estimular a conservação das paisagens naturais e inspirar o maior número possível de pessoas a apreciar o meio ambiente e a fotografar belas imagens, o concurso mobilizou mais de 10.600 fotógrafos profissionais e amadores, de mais de 80 países, dos quais quase 700 eram brasileiros.


Os prêmios para os autores das melhores fotos incluem câmeras profissionais, vale-compras e divulgação nas redes sociais da TNC.


Na categoria global, a foto vencedora é a "Anhinga se banhando", de Geo Jooste, que foi a mais votada pelo júri técnico. Veja aqui todas as fotografias vencedoras.

Oportunidade: Ministério do Meio Ambiente oferece cursos na área ambiental

Local: Chapada Gaúcha e Formoso/MG Data: 11/2010 o Ministério do Meio Ambiente oferece 12 curso com temas ambientais que vão desde educação ambiental em unidades de conservação até conservação de recursos hídricos. Foto: MMA/Rui Faquini
O Ministério do Meio Ambiente oferece 12 curso com temas ambientais que vão desde educação
ambiental em unidades de conservação até conservação de recursos hídricos.
Foto: MMA/Rui Faquini

A partir desta segunda-feira (17/07), o Ministério do Meio Ambiente (MMA) abre as inscrições para cursos a distância nas áreas de recursos hídricos, agricultura familiar, mudança do clima, produção e consumo sustentáveis, unidades de conservação e outros temas.

Dentre os 12 cursos oferecidos está o curso Educação Ambiental e Comunicação nas Unidades de Conservação: estratégias que fazem a diferença, de 70 horas-aula. Com 2000 vagas, o objetivo é “mobilizar e empoderar o público-alvo para a realização de práticas de educação ambiental e comunicação que contribuam com o fortalecimento da Gestão Ambiental de Unidades de Conservação e com a conservação da Biodiversidade”.

Os interessados em participar deste ou dos demais cursos (veja aqui) devem se cadastrar no ambiente virtual do MMA  até o dia 28 de julho e escolher um ou mais cursos. A efetivação da inscrição está condicionada à oferta de vagas. Até o fim do ano, serão abertas 40 mil vagas, incluindo turmas fechadas, realizadas por instituições parceiras.

O conteúdo produzido é livre, para uso público e pode ser disponibilizado para que instituições parceiras os ofertem em suas próprias plataformas. Para mais informações, veja este link.

*Com informações do MMA


domingo, 23 de julho de 2017

Catástrofe climática: a Terra inóspita e inabitável, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Para cada mil pessoas dedicadas a cortar as folhas do mal,
há apenas uma atacando as raízes.”
Henry Thoreau
The Uninhabitable Earth, NYMag
[EcoDebate] A revista New York Magazine (NYMag) publicou, no dia 09/07/2017, uma matéria denominada “The Uninhabitable Earth” – pintando no pior cenário, um Armagedon climático – que se tornou viral e foi comentada amplamente em diversos países e passou a ser o artigo mais lido da revista (ver o link no final desse artigo). 



Infelizmente, pouco se falou sobre o assunto no Brasil. A matéria, com chamada de capa, feita a partir de entrevistas com cientistas renomados, traz uma visão catastrófica do efeito do crescimento das atividades antrópicas sobre os ecossistemas e as mudanças climáticas. A repercussão foi enorme. Houve muita comoção pelo tom apocalíptico, reproduzido por uma grande revista que tem respeitabilidade e repercussão imediata.


O texto começa assim: “It is, I promise, worse than you think” (Prometo, é pior do que você pensa). O subtítulo diz do que se trata: “Fome, colapso econômico e um sol que nos cozinha: o que as mudanças climáticas podem causar – mais cedo do que você pensa”. Evidentemente, o autor está tratando de um cenário extremo e de baixa probabilidade, mas que pode ocorrer se nada for feito para mudar os rumos da insustentabilidade do crescimento econômico e suas externalidades ambientais.



Desta forma, o jornalista David Wallace-Wells realmente conseguiu assustar. A seguir segue uma tentativa de resumir alguns dos principais pontos da matéria.



Na primeira parte, denominada “Apocalipse, espiando além da reticência científica” o autor explica que a ansiedade sobre os efeitos do aquecimento global em relação à elevação do nível do mar, é justificável, mas apenas arranha a superfície dos horrores que podem acontecer no espaço de tempo da vida de um adolescente de hoje. A elevação do nível dos oceanos é ruim, muito ruim, mas fugir do litoral é um problema menor. Na ausência de um ajuste significativo de como bilhões de seres humanos produzem e consomem, partes da Terra provavelmente se tornarão inabitáveis ​​e outras partes ficarão terrivelmente inóspitas, antes do final deste século.



David Wallace-Wells diz que até mesmo pessoas que reconhecem as mudanças climáticas são incapazes de compreender seu alcance. No inverno passado, em diversos dias, a temperatura do Polo Norte ficou 60 a 70 graus mais quentes do que o normal, derretendo o PERMAFROST. Até recentemente, o permafrost não era uma grande preocupação dos cientistas, porque, como o nome sugere, era um solo permanentemente congelado. 


Mas o permafrost do Ártico contém 1,8 trilhão de toneladas de carbono, mais do dobro do que atualmente está suspenso na atmosfera terrestre. Quando se descongela e é liberado, esse carbono pode evaporar-se como o metano, que é 34 vezes mais poderoso do que o CO2. Ou seja, mesmo que a humanidade pare de emitir gases de efeito estufa nas atividades industriais e nos automóveis, o efeito feedback do metano do permafrost pode elevar a temperatura a níveis infernais. Na Antártica não é diferente. O “parto” da Plataforma Larsen C é mais um dos sinais de alarme.


A ocupação, dominação e exploração humana sobre os ecossistemas, juntamente com efeito estufa e a acidificação dos solos e das águas está provocando a 6ª extinção em massa das espécies. O Antropoceno é como uma “máquina de guerra”, todos os dias, o ser humano coloca mais munição. Atualmente, estamos adicionando carbono na atmosfera a uma taxa extremamente elevada. Isto é o que Stephen Hawking tinha em mente quando disse que a nossa espécie precisa colonizar outros planetas no próximo século para sobreviver e o que levou Elon Musk a anunciar seus planos para a colonização do planeta Marte.



Na segunda parte da matéria da NYMag, “O calor mortal, transformando Nova Iorque em Bahrain”, David Wallace-Wells mostra que os seres humanos, como todos os mamíferos, são motores de calor. Sobreviver significa ter que esfriar continuamente, como cães ofegantes. Para isso, a temperatura precisa ser suficientemente baixa para que o ar atue como uma espécie de refrigerador, extraindo calor da pele para que o motor possa continuar bombeando. Mas as ondas mortais de calor estão tornando a vida impossível em algumas regiões, pois em temperaturas muito altas, dentro de horas, um corpo humano seria cozido até a morte por dentro e por fora.


O autor reporta que na região açucareira de El Salvador, cerca de um quinto da população tem doença renal crônica, o resultado presumido da desidratação de trabalhar nos campos. Desde 1980, o planeta experimentou um aumento de 50 vezes no número de locais com calor perigoso ou extremo. Um aumento maior virá em breve. Os cinco verões mais quentes da Europa desde 1500 ocorreram desde 2002 e, em breve, simplesmente estar ao ar livre, nessa época do ano será insalubre para grande parte do globo. A quatro graus, a onda mortal de calor europeia de 2003, matou 2.000 pessoas por dia. 


Mesmo que atingindo os objetivos de Paris de dois graus de aquecimento, cidades como Karachi e Calcutá se tornarão próximas a inabitáveis. A crise será mais dramática no Oriente Médio e no Golfo Pérsico, onde, em 2015, o índice de calor registrou temperaturas tão altas que a sensação térmica chegou a 163 graus Fahrenheit (72º C). Assim, num futuro próximo, o Hajj se tornará fisicamente impossível para os 2 milhões de muçulmanos que fazem a peregrinação a cada ano a Meca.



Na terceira parte da matéria da NYMag, “O fim da comida, rezando por campos de milho na tundra”, David Wallace-Wells diz que nas culturas de cereais os rendimentos da colheita diminuem 10% para cada grau de aquecimento. O que significa que, para uma população de 11 bilhões de habitantes, poderemos ter 50% menos de grãos para oferecer. E o efeito do aquecimento global sobre as proteínas animais serão pior. A perda de solos será dramática, especialmente nos trópicos. A seca pode ser um problema ainda maior do que o calor, com algumas das terras mais aráveis ​​do mundo passando rapidamente para o deserto. O quadro já é preocupante hoje, com a ONU alertando de que 20 milhões de pessoas podem morrer de fome na Somália, Sudão do Sul, Iêmen e Nigéria.



Na quarta parte da matéria da NYMag, “Pragas climáticas, o que acontece quando o gelo bubônico derrete”, David Wallace-Wells relata que o gelo funciona como um livro do clima, mas também é uma história congelada, com pragas armazenadas que podem ser reanimados quando descongelados. Atualmente, estão presos no gelo do Ártico, doenças que não circularam no ar há milhões de anos. O que significa que nosso sistema imunológico não teria ideia de como lutar quando essas pragas pré-históricas emergem do gelo. O Ártico também armazena insetos aterrorizantes nos tempos mais recentes. Já no Alasca, pesquisadores descobriram os restos da gripe de 1918 que infectaram até 500 milhões e mataram cerca de 100 milhões de pessoas – cerca de 5% da população mundial e quase seis vezes mais do que morreram na Primeira Guerra Mundial.



Na quinta parte da matéria da NYMag, “Ar irrespirável, uma poluição (smog) mortal que atinge milhões de pessoas”, David Wallace-Wells considera que até o final do século, os meses mais legais da América do Sul tropical, da África e do Pacífico provavelmente serão mais quentes do que os meses mais quentes no final do século XX. Nossos pulmões precisam de oxigênio, mas isso é apenas uma fração do que respiramos. Com o aumento da concentração de CO2, em comparação com o ar que respiramos agora, a capacidade cognitiva humana diminui em 21%. 



Em 2090, cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo estarão respirando um ar poluído, acima do nível “seguro” definido pela OMS. Documentos mostram que, entre outros efeitos, a exposição da mãe grávida ao ozônio aumenta o risco de autismo da criança. Já morrem cada dia mais de 10 mil pessoas das pequenas partículas emitidas pela queima de combustível fóssil. A cada ano, 339 mil pessoas morrem de fumaça de incêndios, em parte porque a mudança climática prolongou a temporada de fogo florestal. O que preocupa ainda mais as pessoas é o efeito que teria sobre as emissões, especialmente quando os incêndios provocam uma queda nas florestas decorrentes da turfa. Os incêndios são especialmente ruins na Amazônia que sozinha fornece 20% do nosso oxigênio. O “airpocalypse” chinês de 2013 tem afetado as atividades econômicas do país e foi responsável por um terço de todas as mortes na China.



Na sexta parte da matéria da NYMag, “Guerra perpétua, a violência cozida no calor”, David Wallace-Wells relata que os climatologistas são muito cuidadosos ao falar sobre a Síria e querem crer que, embora a mudança climática tenha produzido uma seca que contribuiu para a guerra civil, não é justo dizer que o conflito é o resultado do aquecimento. Mas há pesquisadores que conseguiram quantificar algumas das relações não óbvias entre temperatura e violência: para cada meio grau de aquecimento, eles dizem, as sociedades verão entre um aumento de 10 e 20% na probabilidade de conflitos armados.
Na sétima parte da matéria da NYMag, “Colapso Econômico Permanente, tenebroso capitalismo em um mundo meio pobre”, David Wallace-Wells ridiculariza o mantra do neoliberalismo de que “o crescimento econômico nos salvaria de todos e de tudo”. 



Mas no rescaldo da crise financeira de 2008, um crescente número de historiadores que estudam o que chamam de “capitalismo fóssil” começaram a sugerir que toda a história do rápido crescimento econômico, que começou um pouco antes do século 18, não é o resultado da inovação, mas simplesmente da descoberta dos combustíveis fósseis e todo o seu poder energético. Com o pico do petróleo, voltaremos a uma economia do “estado estacionário”. Além do mais, cada grau Celsius de aquecimento custa, em média, 1,2% do PIB. Os limites ambientais devem levar a economia global à estagnação secular.



Na oitava parte da matéria da NYMag, “Oceanos Envenenados, Sulfeto de hidrogênio e o esqueleto”, David Wallace-Wells declara que o mar se tornará um assassino. O nível do mar vai subir no mínimo um metro. Um terço das principais cidades do mundo estão na costa, para não mencionar suas usinas de energia, portos, bases da marinha, terras agrícolas, pescas, deltas de rios, pântanos e plantações de arroz. O naufrágio das benfeitorias é apenas o começo. No momento, mais de um terço do carbono do mundo é absorvido pelos oceanos – ainda bem, ou então teríamos muito mais aquecimento. Mas o resultado é o que se denomina “acidificação do oceano”, que, por si só, pode aumentar meio grau de aquecimento neste século. 



Há também o “branqueamento de corais” – isto é, morte de corais – que é uma notícia muito ruim, porque os recifes suportam tanto quanto um quarto de toda a vida marinha e fornecem alimentos para meio bilhão de pessoas. Acidificação dos oceanos frita as populações de peixes. Nas águas ácidas, as ostras e os mexilhões terão dificuldade em cultivar suas conchas. Quando o pH do sangue humano cai tanto quanto o pH dos oceanos, induz convulsões, comas e morte súbita. A absorção de carbono pode iniciar um ciclo de feedback em que as águas sub-oxigenadas produzem diferentes tipos de micróbios que tornam a água ainda mais “anóxica”, primeiro em “zonas mortas” do oceano profundo, depois gradualmente em direção à superfície.




Na nona parte da matéria da NYMag, “O Grande Filtro, nossa curiosidade atual não pode durar”, David Wallace-Wells pondera que não existe uma vontade de esclarecer os efeitos da mudança climática. Certamente essa cegueira não durará, pois, o mundo que estamos prestes a habitar não o permitirá. Em um mundo de seis graus mais quente, o ecossistema terrestre vai ferver com tantos desastres naturais. Os furacões mais fortes virão com mais frequência, e teremos de inventar novas categorias para descrevê-los.




Em síntese, o autor considera que é preciso avaliar melhor os danos já causados ​​ao planeta. A Terra pode ficar inabitável, pois são muitos os processos que estão afetando a capacidade de sobrevivência da humanidade. Provavelmente, a Terra não ficará desabitada, mas a qualidade de vida da população mundial poderá reduzir bastante em um Planeta degradado. O Holoceno garantiu 10 mil anos de estabilidade climática. O Antropoceno e a grande aceleração das atividades antrópicas estão desequilibrando o clima e transformando a biosfera em um habitat inóspito e inabitável.



Indubitavelmente, David Wallace-Wells conseguiu assustar muita gente. Mas, principalmente, conseguiu fazer as pessoas discutirem os cenários negativos para os quais o mundo está caminhando na medida que mantém o atual modelo de produção e consumo, sem respeitar o fluxo metabólico entrópico e os limites do meio ambiente.




Creio que vale a pena ler o artigo “The Uninhabitable Earth” e as centenas de respostas que foram publicadas logo a seguir. Para contribuir com a discussão indico abaixo algumas referências das pessoas que concordaram, aquelas que discordaram do tom, mas concordam com os perigos potenciais do aquecimento global e aquelas que discordam:



Artigos que defendem o uso de uma linguagem catastrófica como forma de alerta:
JOE ROMM. We aren’t doomed by climate change. Right now we are choosing to be doomed, 11/07/2017 https://thinkprogress.org/climate-change-doomsday-scenario-80d28affef2e
KEVIN DRUM. Our Approach to Climate Change Isn’t Working. Let’s Try Something Else. 10/07/20017
Steve Rousseau. Did New York Magazine Make Its Climate Change Story Too Scary? 10/07/2017
SUSAN MATTHEWS. Alarmism Is the Argument We Need to Fight Climate Change. New York magazine’s global-warming horror story isn’t too scary. It’s not scary enough, 10/07/2017
ROBERT HUNZIKER. Uninhabitable Earth? 14/07/2017
Ian Johnston. Earth could become ‘practically ungovernable’ if sea levels keep rising, says former Nasa climate chief, 14/07/2017



Artigos que consideram sérias as ameaças, mas não defendem o uso de uma linguagem catastrófica:
ROBINSON MEYER. Are We as Doomed as That New York Magazine Article Says? Why it’s so hard to talk about the worst problem in the world, JUL 10, 2017
Eric Holthaus. Stop scaring people about climate change. It doesn’t work. Jul 10, 2017
Michael E. Mann, Susan Joy Hassol and Tom Toles. Doomsday scenarios are as harmful as climate change denial, 12/07/2017
Michael Le Page. Uninhabitable Earth? In fact, it’s really hard to fry the planet. A controversial article says we’re heading for the worst-case warming scenarios. But while we can’t rule out extreme warming, it’s not our most likely future, 12 July 2017
JOHN TIMMER Climate scientists push back against catastrophic scenarios. In both the popular and academic press, scientists argue against worst cases. 12/07/2017
Ian Johnston. Climate change doomsday warning of ‘rolling death smog’ and ‘perpetual war’ criticised by scientists, Independent, 13/07/2017
David Roberts. magazine climate story freak you out? Good. It’s okay to talk about how scary climate change is. Really, 11/07/2017
Judith Curry. Alarm about alarmism, July 15, 2017


Artigos contra o tom catastrófico e que acreditam que ainda há esperança
EMILY ATKIN. The Power and Peril of “Climate Disaster Porn”. Climate scientists say New York magazine’s cover story about global warming is unnecessarily apocalyptic. But can fear help the planet? July 10, 2017
Warner Todd Huston. NY Magazine Claims Planet Earth Will Soon Become Uninhabitable, Turns Into Giant Mess, 11/07/2017
Rachel Becker. Why scare tactics won’t stop climate change. Doomsday scenarios don’t inspire action, 11/07/2017
Oren Cass. Truth Is Just a Detail. Pundits invested in climate-change alarmism praise even shoddy work—as long as it comes to the right conclusions. July 11, 2017
ANDREW FREEDMAN. No, New York Mag: Climate change won’t make the Earth uninhabitable by 2100, 11/07/2017
Climatefeedback. Scientists explain what New York Magazine article on “The Uninhabitable Earth” gets wrong, 12/07/2017
Mark Tercek. Don’t Panic, Do Act: A Climate Resource With Real Solutions, 14/07/2017



Entrevista com David Wallace-Wells sobre o artigo “The Uninhabitable Earth”
REBECCA FISHBEIN Are Humans Doomed? A Q&A With The Author Of NY Mag’s Terrifying Climate Change Story`, 10/07/2017
Wikipedia. The Uninhabitable Earth, 11/07/2017
Referências:
David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth. Famine, economic collapse, a sun that cooks us: What climate change could wreak — sooner than you think. NYMag, 09/07/2017
Versão revisada e comentada do artigo pelo próprio autor
David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth, Annotated Edition. The facts, research, and science behind the climate-change article that explored our planet’s worst-case scenarios, 14/07/2017
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/07/2017
"Catástrofe climática: a Terra inóspita e inabitável, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/07/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/07/19/catastrofe-climatica-terra-inospita-e-inabitavel-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

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A dialética fóssil de Michel Temer, artigo de Nicole Figueiredo de Oliveira



Como investimentos em petróleo e gás podem ajudar ou manchar ainda mais a imagem do governo brasileiro no cenário internacional


Michel Temer tem a escolha em suas mãos: manchar ainda mais sua imagem com petróleo e gás, ou colocar o Brasil na liderança climática global (Foto: France Press).
Michel Temer tem a escolha em suas mãos: deixar seu rastro sujo de petróleo ou colocar o Brasil na liderança climática global (Foto: France Press).
Não importa a cor dos trajes usados por Michel Temer durante a reunião de cúpula do G20, todos tinham um tom “envergonhado”. Vendo seu governo ruir a olhos nus, o presidente está mais empenhado em livrar a própria pele do que preocupado com a economia, a diplomacia ou quem dirá com o planeta. Temer quase desistiu de participar do encontro na Alemanha, mas uma vez lá, ele não poderia assumir outra postura que não aquela da cabeça baixa, dos ombros retraídos e do sorriso amarelo.


Perto do isolamento de Donald Trump, entretanto, até que sua imagem não estava de todo mal. O comunicado final da reunião, que reuniu as maiores economias do mundo, registrou o apoio dos 19 países, com exceção dos Estado Unidos, à manutenção do Acordo de Paris. O governo brasileiro reafirmou seu compromisso de combate “inadiável” ao aquecimento global e o cumprimento das metas estabelecidas no Acordo, recém-promulgado como lei nacional.


Mas como o presidente pode sustentar essa promessa se os combustíveis fósseis, maiores emissores de gases do efeito estufa, continuam no topo da sua lista de prioridades domésticas? Enquanto Temer participava do encontro em Hamburgo, o Plano Decenal de Energia 2026, aberto para consulta pública na última sexta-feira, prevê nada menos do que 70,5% de investimentos em carvão, gás e petróleo, em especial o do pré-sal, mantendo a mesma proporção do plano anterior. E isso só espelha o que já está sendo posto em prática pelo setor petrolífero do governo.


Na audiência pública que analisou o edital e contrato da 14a Rodada de Licitações da Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP), que acontecerá em setembro, o superintendente de Licitações da ANP, Marcelo Castilho, afirmou que esta será a segunda dentre as dez rodadas previstas para os próximos dez anos. Além disso, com a nova política para o setor aprovada recentemente pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que permite a oferta permanente de blocos já licitados em terra e mar, a indústria fóssil tem sido cada vez mais fortalecida no cenário nacional.


Segundo relatório divulgado na última semana pela iniciativa Climate Transparency, que monitora as políticas climáticas dos países, o governo brasileiro gastou US$ 25,5 bilhões (R$ 76 bilhões) em 2014 para subsidiar carvão, petróleo e gás. O total inclui gastos com incentivos fiscais para o desenvolvimento de infraestrutura, regime tributário especial para equipamentos de exploração e produção de petróleo e gás, além da geração elétrica a carvão.


Como se não bastasse, outra ameaça ao clima, ao ambiente e à saúde da população tem retomado sua força junto ao governo. Desde a suspensão da 12a Rodada de Licitações,  realizada em 2013 e que leiloou blocos para exploração não convencional de petróleo e gás de xisto, o método do fraturamento hidráulico – ou fracking – não vem à tona nos editais da ANP. Entretanto, recentemente o governo voltou a falar publicamente no assunto.


Durante a audiência da 14a Rodada, o diretor da ANP, Waldyr Barroso, admitiu que, mesmo não tendo isso explicitado no edital, podem haver áreas para exploração não convencional no próximo leilão. Alguns dias depois, o Ministério de Minas e Energia (MME) declarou que planeja realizar um projeto-piloto para “testar a exploração não convencional de óleo e gás” no país.


Isso só demonstra que o governo brasileiro não está honrando seus compromissos, e que a tão necessária transição para uma economia com baixas emissões de carbono, com recursos direcionados a fontes renováveis de energia, está muito mais distante do que as palavras de Temer podem fazer crer. Nesse ritmo, os limites de aquecimento estabelecidos pelo Acordo de Paris serão naturalmente ultrapassados.


Para frear as emissões de gases-estufa é preciso não só parar o financiamento aos fósseis como interromper a queima de todas as reservas de carvão, petróleo e gás existentes. As potenciais emissões de carbono nos campos e minas já operantes no mundo todo são suficientes para elevar a temperatura acima dos 2°C.


Continuar a investir na indústria fóssil significa financiar a crise climática global. O desinvestimento em combustíveis fósseis é mais urgente do que nunca e, ainda de quebra, pode ajudar a limpar a imagem do governo de Michel Temer, colocando o Brasil na liderança climática global. Mas para isso o presidente precisa tomar o caminho certo em suas decisões, só para variar um pouco.

*Nicole é Diretora da 350.org Brasil e América Latina

Fonte: 350.org Brasil e América Latina e COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/07/2017

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Aquecimento global e ondas mortais de calor, artigo de José Eustáquio Diniz Alves



distribuição geográfica das condições climáticas mortais

[EcoDebate] O mundo está ficando mais quente, mas umas áreas esquentarão mais do que outras e as ondas de calor ficarão mais frequentes e mais letais. O Brasil vai ser um dos países mais afetados pelas ondas mortais de calor que devem se espalhar pelo globo ao longo do século XXI, ainda que se atinja a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento global abaixo do patamar de 2º C até 2100.


A figura acima mostra o número de dias por ano que excede o limiar de temperatura e umidade para além do qual as condições climáticas se tornam mortíferas no cenário RCP 8.5 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O artigo “Global risk of deadly heat”, publicado no periódico Nature Climate Change (19/06/2017) considera que as mudanças climáticas vão tornar mais frequentes as ondas de calor letais, no cenário de manutenção atual das emissões de gases de efeito estufa (GEE).


Atualmente, 30% dos habitantes da Terra passam por períodos de calor extremo em algum momento do ano, mas ao longo do corrente século, três quartos da população mundial enfrentarão ondas mortais de calor. Mesmo com o cumprimento dos objetivos do Acordo de Paris, a população exposta ao calor mortal será de cerca de 50%.


As ondas de calor não são coisas do futuro, mas já deixaram milhares de mortos, até mesmo em países desenvolvidos e melhor equipados para enfrentar o clima extremo. Na Europa Ocidental, por exemplo, houve mais de 70 mil mortes apenas durante o verão intenso de 2003.


Em junho de 2017, uma onda de calor intensa atingiu a cidade de Phoenix, Arizona, quando os termômetros foram a 120° F (49º C). Isto fez algumas companhias aéreas cancelarem os voos por causa do calor. A American Airlines disse que cancelou 50 voos porque os aviões não podem operar acima de 118° F. Foi apenas um exemplo das interrupções que a mudança climática criará para viagens aéreas.


Artigo de Georgina Gustin (13/07/2017) mostra que durante uma intensa onda de calor no Sudoeste no mês passado, a American Airlines cancelou dezenas de voos em Phoenix porque certos aviões em sua frota não foram projetados para operar a temperaturas acima de 118º F. Estudo recente apontou 19 aeroportos ao redor do mundo onde o aumento das temperaturas tornaria mais difícil o fluxo dos aviões. Durante períodos especialmente quentes, os aviões provavelmente terão que reduzir a quantidade de peso que podem transportar para se transportar no ar.


No início de julho de 2017, uma onda de calor impressionante envolveu o oeste dos EUA, ajudando a alimentar vários incêndios florestais. O calor veio graças uma corrente de alta pressão que se moveu para o Oeste, com as temperaturas máximas batendo vários recordes, como na figura abaixo:



Uma temperatura acima de 120º F (49º C) pode tornar a vida inviável e o local inabitado. A temperatura mais alta já registrada ocorreu no Vale da Morte da Califórnia, nos EUA, de 134º F (56,7 graus Celsius), em 10 de julho de 1913.


Mas normalmente, os trópicos enfrentam as maiores temperaturas médias e podem ser as regiões mais afetadas no futuro. A Indonésia, as Filipinas, o norte e nordeste do Brasil, a Venezuela, o Sri Lanka, o sul da Índia, a Nigéria, a maior parte da África Ocidental e o norte da Austrália enfrentarão mais de 300 dias de ondas de calor potencialmente letais cada todos os anos sob a trajetória atual de emissões, conhecida como RCP 8.5.


O Brasil terá a maior área atingida pelas ondas de calor. Cidades como Boa Vista, em RR, Manaus, AM, Macapá, AP, e Cuiabá, MT, vão ter dificuldades para manter as suas atividades normais, pois as ondas de calor vão perturbar o dia a dia da vida de todos os habitantes. Deve subir os casos de câncer de pele e outras doenças, pois a umidade elevada reduz a capacidade do corpo humano de esfriar através da transpiração. Quando o calor no corpo não pode ser expelido, cria uma condição chamada citotoxicidade por calor que é prejudicial para muitos órgãos e pode ser fatal.


No início do verão de 2017, várias partes do hemisfério norte foram atingidas por ondas de calor mas também por picos de frio, acentuando os eventos extremos. A Sibéria quebrou recordes absolutos de temperatura. A temperatura em Krasnoiarsk (a 3.350 km a leste de Moscou) quase quebrou o recorde absoluto da região, com a marca de 37ºC, o que desencadeou incêndios florestais na Rússia. Em outro extremo do país, em Murmansk, os termômetros marcaram 1º C, com a ocorrência de neve.


Na cidade de Ahvaz, no Irã, a temperatura atingiu 129º Fahrenheit (ou 54º Celsius) no dia 29/06/2017. O índice de “calor real” atingiu 142 graus por causa da umidade (61º Celsius). Estes valores superam o índice de calor, desenvolvido em 1978, e que tem um máximo de 136 graus Fahrenheit (58º Celsius). As ondas de calor são mais facilmente atribuíveis às mudanças climáticas, de acordo com cientistas, porque há uma conexão clara entre o carbono absorvido na atmosfera e a temperatura elevada. Esse calor extremo coloca os moradores de Ahvaz em grave perigo para desidratação, fadiga por calor, cólicas, choque de calor e outras doenças. Para os idosos, esses riscos são amplificados.

Na cidade de Ahvaz, no Irã, a temperatura atingiu 129º Fahrenheit (ou 54º Celsius) no dia 29/06/2017

Problema grave são também as queimadas, pois o tempo seco e quente aumenta a autocombustão das florestas e matas, que, ao mesmo tempo, aumenta a emissão de GEE. Artigo de Anne-Sophie Brändlin (DW, 19.06.2017) mostra que incêndios incrivelmente grandes causaram um impacto devastador sobre o Alasca e a Indonésia em 2015. Em 2016, o Canadá, a Califórnia e a Espanha foram devastados por chamas incontroladas.


Em 2017, incêndios maciços devastaram as regiões do Chile e Portugal, com dezenas de vidas. Estudos extensivos constataram que grandes incêndios florestais no oeste dos EUA têm ocorrido quase cinco vezes mais frequentes atualmente do que nos anos 70 e 80. Outro incêndio atingiu em junho uma reserva natural espanhola e ameaça o Parque Nacional de Doñana, uma das áreas de biodiversidade mais importantes da Espanha e um patrimônio mundial da Unesco.


Incêndios florestais nos estados norte-americanos de Utah e Califórnia destruíram a vegetação e obrigaram a evacuações de casas. Em Utah, 1.500 pessoas tiveram de ser retiradas de suas casas. Na Califórnia, o incêndio foi em Santa Clarita, a norte de Los Angeles. Tais incêndios queimam mais de seis vezes a área terrestre, aumentando as emissões e diminuição a capacidade das matas em sequestrar carbono. Com o aumento das temperaturas os incêndios vão se transformar em coisas normais e mais frequentes (Georgina Gustin, 11/07/2017).


Artigo de Lorraine Chow (30/06/2017) apresenta as imagens capturadas por satélite da NASA, na última semana de junho de 2017, mostrando incêndios violentos cobrindo grandes faixas das florestas boreais da Sibéria. Cerca de 27 mil hectares (100 milhas quadradas) queimaram na região do Oblast de Irkutsk no sul da Sibéria e outros 27 mil hectares queimados em estados e regiões vizinhas. As florestas boreais armazenam cerca de 30% do carbono mundial. Quando queimam, colocam esse carbono na atmosfera, aumentando os impactos das mudanças climáticas e criando uma Ciclo vicioso que provavelmente levará a mais incêndios


O aquecimento global e as ondas mortais de calor vão afetar os solos e as águas dificultando a produção de alimentos. Assim, vai ficar cada vez mais difícil fornecer e garantir água potável e alimentos para 11 bilhões de habitantes do Planeta, previstos para 2100. Ou seja, o aquecimento global deve afetar a vida da maioria dos seres humanos além de contribuir para acelerar a 6ª extinção em massa das espécies.


O artigo “The Uninhabitable Earth” de David Wallace-Wells, publicado na revista New York Magazine (09/07/2017), que teve grande repercussão nas redes sociais, mostra um cenário catastrófico das ondas mortais de calor, especialmente em um quadro de aceleração do aquecimento global:


Os seres humanos, como todos os mamíferos, são motores de calor. Sobreviver significa ter que esfriar continuamente, como cães ofegantes. Para isso, a temperatura precisa ser suficientemente baixa para que o ar atue como uma espécie de refrigerante, extraindo calor da pele para que o motor possa continuar bombeando. Isso se tornaria impossível para grandes porções da banda equatorial do planeta, especialmente os trópicos, que poderiam aquecer sete graus e onde a umidade contribuiria para agravar o problema. 



Nas selvas da Costa Rica, por exemplo, onde a umidade geralmente atinge 90%, simplesmente se mover quando o sol está a mais de 105º Fahrenheit (41º C) seria letal. E, em temperaturas mais altas, o efeito seria rápido: dentro de horas, um corpo humano seria cozido até a morte por dentro e por fora” (tradução livre).


Os cenários são terríveis se nada for feito para deter o aquecimento global e as ondas letais de calor. O renomado físico britânico Stephen Hawking disse à BBC que “As ações de Trump podem levar a Terra à beira do abismo e transformá-la em Vênus, onde a temperatura atinge 250ºC e há chuva de ácido sulfúrico”.


O temor de Hawking é de que nossas circunstâncias na Terra fiquem cada vez mais parecidas a essas condições inóspitas. “Estamos em um ponto crítico no qual o aquecimento global vai se tornar irreversível”.



Referências:


Camilo Mora et. al. Global risk of deadly heat. Nature Climate Change, 19 June 2017
https://www.nature.com/nclimate/journal/vaop/ncurrent/full/nclimate3322.html
Anne-Sophie Brändlin. How climate change is increasing forest fires around the world, DW, 19.06.2017
http://www.dw.com/en/how-climate-change-is-increasing-forest-fires-around-the-world/a-19465490
Lorraine Chow. Siberian Wildfire Can Be Seen from Space as Earth’s Boreal Forests Burn at Unprecedented Rates, EcoWatch, 30/06/2017
https://www.ecowatch.com/nasa-siberian-wildfire-2450916592.html
Georgina Gustin. Longer, Fiercer Fire Seasons the New Normal with Climate Change, Inside Climate News, 11/07/2017
https://insideclimatenews.org/news/11072017/wildfire-forest-fire-climate-change-california
Georgina Gustin. Why Heat Waves Will Get Costlier for Airlines, More Annoying for Travelers, Inside Climate News, 13/07/2017
https://insideclimatenews.org/news/13072017/climate-change-airline-flight-delays-excessive-heat-waves-weight-restrictions
David Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth, NYT, 09/07/2017
http://nymag.com/daily/intelligencer/2017/07/climate-change-earth-too-hot-for-humans.html

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/07/2017
"Aquecimento global e ondas mortais de calor, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/07/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/07/21/aquecimento-global-e-ondas-mortais-de-calor-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

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